Caso alguma imagem do blog não esteja aparecendo, por favor, avise nos comentários da postagem em questão!

10/09/2013

Minha vida é um conto alado II - Mafalda

O conto de hoje é um pouco triste, mas também nos mostra uma história de força e superação. E sim, dessa vez fiz um conto... hehe.
Ah, e também é uma participação internacional, pois veio de nossa amiga Mafalda, de Portugal, que é dona dos blogs "Mafaldinha Arte" e "Ponto de cruz da Mafalda"! Como "Mafalda" já é o seu pseudônimo, ela pediu que eu o mantivesse, e é isso o que eu fiz. Só ousei um pouco invertendo a ordem do relato dela, e estiquei um pouco um dos acontecimentos que ela menos descreveu. Como eu disse na postagem em que expliquei este quadro, tenho que dar uma mexida para dar à história um ar de conto, então o texto pode se distanciar um pouco do acontecimento real. Mas mantive todos os acontecimentos presentes no e-mail que foi enviado; que, aliás, tinha uma descrição tão explicada, com tantos detalhes específicos, que montar o texto foi uma tarefa deliciosa.
Antes de começar, quero lembrar que você também pode ter sua história transformada em conto e publicada aqui, basta acessar a postagem do quadro e conferir as regras. Eu ficaria muito feliz ao poder contar com sua participação, estou amando este quadro e quero continuar com ele por muito tempo, se Deus permitir. Espero que vocês apreciem a leitura, e que ela possa ser um incentivo para que você participe também!

Reviravoltas da vida:

Ela bateu cerca de dez vezes seguidas na porta pintada de verde, de um jeito apressado de quem busca refúgio; e com uma urgência tão intensa que parecia que Mafalda estava tentando fugir do diabo em pessoa.
    Por um instante, apenas aguardou que algo acontecesse, voltando seu rosto para o chão e assistindo enquanto uma pequena gota de água formava uma mancha redonda no asfalto, percebendo que ela acabara de cair de seus próprios olhos. Por horas a fio ela havia remoído suas tristezas, mas agora só o que tinha em mente era conseguir que alguém atendesse à porta, e que essa pessoa aceitasse lhe acolher enquanto a ferida não sarasse.
    O que ela queria mesmo era fugir de seus próprios demônios.
    Mafalda quase caiu para trás com o susto que levou quando a porta se abriu, revelando do outro lado um rapaz que deveria ter quase a sua idade, todo desarrumado e com cara de quem está aborrecidíssimo por ter sido tirado da cama mais cedo do que o normal. Por um instante a garota apenas o encarou, ainda pensando se havia motivos racionais para recorrer a ele.
    — Mafalda? O que está fazendo aqui a essa hora? — ele a fitou com os olhos semicerrados, tentando decidir se aquilo era um sonho ou se ela realmente era louca o suficiente para o acordar àquela hora.
    — Posso entrar, James? Está um pouco frio aqui fora... — pediu ela, cruzando os braços trêmulos e fungando para conter o pranto que começava a se formar na sua garganta.
    — Tudo bem, entre. — O rapaz notou que ela parecia não estar nada bem e deu um passo para o lado, abrindo espaço para que ela pudesse cruzar o portal.
    A sala-de-estar daquela casa era pequena e confortável, Mafalda sentou na ponta esquerda do sofá e abraçou uma das almofadas bege, enquanto James sentava na ponta oposta, apoiando uma das pernas no braço do sofá.
    — Bom, o que lhe trouxe aqui? Que eu me lembre, não sou exatamente um dos seus melhores amigos.
    Mafalda não respondeu imediatamente, ficou encarando por um tempo um vaso de flores que estava numa mesinha, num dos cantos da sala.
    — Hoje... quero dizer... ontem foi meu aniversário de dezesseis anos e, Deus, foi um dia terrível! — começou ela, já sentindo que a voz começava a se embargar.
    — Deixe-me adivinhar — intrometeu-se James, girando os olhos para o teto e escorregando do braço do sofá para o assento. — O permanente que você fez para a festa não ficou bom? O seu vestido queimou quando você foi passá-lo? Não... já sei! O bolo que você encomendou veio com a cor errada?
    — Nada disso, foi muito pior: meu avô faleceu, e eu tive que cancelar tudo. Eu o amava tanto... e ele se foi no dia que deveria ser o melhor de minha vida até agora.
    James mexeu-se no sofá, envergonhado. Abriu a boca três vezes para falar, mas só na quarta conseguiu dizer:
    — Sinto muito... meus pêsames, Mafalda. Deve ter sido horrível.
    — E foi; muito mais do que horrível, aliás. Era para ser o dia perfeito... mas foi tudo indo de mal a pior.
    — Olha, sei que não posso trazer seu avô de volta, e nem fazer com que esse dia nunca tenha acontecido; porém, também sei que conversar é sempre muito bom para quem está nessa situação — sugeriu James, sentindo que precisava ajudá-la de alguma forma. — Conte-me o que houve, prometo que serei um bom ouvinte.
    Antes de começar, Mafalda suspirou, de uma forma profunda e dolorida. Havia acontecido tanta coisa que lhe parecia que havia se passado uma semana, e não vinte e quatro horas.
    — Meu avô Antoninho tinha sessenta e seis anos, já estava doente há meses, sendo que a maior parte do tempo estava acamado. Dia sim, dia não, vinham umas enfermeiras para tratar as feridas que ele tinha nas pernas...

    Mas foi minha avó Maria que mais cuidou dele, era como se ele fosse um bebê bastante crescido. Tão fraquinho que estava, e ainda assim preservava aquele carinho já tão particular dele, principalmente para comigo. E também para a minha gata, a Kika, que certamente vai estranhar muito a ausência dele a partir de hoje.
    Minha avozinha sempre foi a pessoa mais alegre e forte que existe, cuidava de seu marido com uma alegria exemplar. Ainda assim, quando ela pensava que eu não estava olhando, eu podia notar que ela andava aborrecida, cansada mesmo. Agora vejo que deve ter sido muito duro o que ela passou nestes últimos meses, passando dia e noite na luta para manter nosso Antoninho vivo. Queria ter ajudado ainda mais, queria ter feito alguma coisa para que os dias de meu avô se estendessem por muitos mais anos... só que de uma forma que não fizesse minha avó sofrer, e nem ele. Minha melhor amiga Carmita me perguntava por que eu andava tão infeliz, eu respondia que era apenas por causa do meu relacionamento com o Tiago, meu namorado. Acho que queria evitar o assunto para que ele não fosse ainda mais doloroso.
    Eu estava muito triste por vê-lo piorar e piorar, quando surgiu uma janela de felicidade em meio a esta escuridão: chegara o dia em que eu completaria meu décimo sexto aniversário, e eu fizera de tudo para que aquele dia fosse o mais venturoso possível. Falando assim, parece que foi há muito tempo, penso naquela minha animação como se fosse de outra pessoa, e não minha, pois acho que por muito tempo não conseguirei sentir-me assim novamente.
    Você pode imaginar o quanto foi chocante saber que meu avô fora arrancado desta vida, que ele nunca mais veria um aniversário meu. Nem consigo lembrar quais foram as últimas palavras que lhe disse; quero dizer a mim mesma que deve ter sido um beijo e um desejo de boa noite, mas nunca poderei ter absoluta certeza.
    Entretanto, ao mesmo tempo, fiquei tão zangada que não consegui conter minha frustração. Não que eu estivesse zangada com meu avô por ter morrido, eu me indignava com a situação, por aquilo ter acontecido justo no dia em que todas as minhas amigas viriam comemorar comigo, e também justo quando eu conseguira convencer meus pais a deixarem que eu fosse jantar com o Tiago, depois da festa. Imagine só, a gente passaria nossa primeira noite juntos, e tudo aquilo fora por água a baixo num segundo!
    Mais tarde, fomos ao funeral. Não sei o que mais me despedaçou naquela hora: se foi ver o caixão sendo içado para dentro da cova — e observar depois a terra o cobrir de forma tão definitiva — ou se foi contemplar minha avó Maria vestindo o luto, com seus cabelos negros presos em um coque sóbrio e os olhos marejados, tão diferentes dos globos bem-humorados que me fitaram da forma mais meiga desde o momento em que nasci.
    Carmita também estava lá, e ela foi o meu sustento. Mesmo chorando muito, soube como me mostrar que não estava sozinha, que podia contar com ela. Com ela e com minhas amigas também, que não esqueceram de vir demonstrar o quanto se entristeciam ao ver-me chorando a morte do meu avô.
    E então aconteceu a última coisa que pensei que aconteceria. Eu pensava que nada pior poderia suceder, quando meu destino deu mais uma reviravolta fatal.
    Tiago não apareceu no funeral, mandou dizer que tinha ido a uma consulta do médico. Pouco depois, acabei descobrindo pela própria pessoa que me passara o recado que aquilo era um eufemismo para dizer que ele não podia vir pois estava se drogando.

    — Imagine só, James, ele se drogava há um tempão... e eu nunca suspeitei que ele fizesse algo parecido. Se nosso namoro continuasse, provavelmente daqui a pouco eu estaria casada com um drogado, sofrendo por que ele mal poderia me reconhecer em meio aos seus delírios narcóticos!
    — E o que aconteceu depois disso? — perguntou finalmente o rapaz, que ficara durante toda a narração de Mafalda num silêncio atento, cumprindo de forma rigorosa a sua promessa de ser um bom ouvinte.
    — Voltei para casa, chorei muito; depois fugi. E vim bater à sua porta.
    — Por que exatamente aqui, Mafalda? A gente mal se fala... — James entortou a expressão, tentando encontrar um sentido na atitude da garota.
    — Não sei. Foi o primeiro lugar que me veio à mente. Não estou conseguindo pensar direito depois de tudo isso, sabe.
    — Tudo bem, pode ficar aqui o quando precisar — ofereceu o garoto, sentindo uma mistura de pena e simpatia depois dela ter aberto o coração de forma tão sincera.
    Pela janela os primeiros raios da manhã podiam ser vistos, quentes e esperançosos. Mafalda agradeceu ao garoto e depois se recostou no sofá, percebendo o quanto estava exausta depois de tanto desespero, ansiando o momento em que adentraria em um mundo de sonhos; onde aquela dor não fosse tão evidente, onde sua mente estaria livre para pensar em outra coisa que não fosse seu próprio pesar...

Já havia passado mais de cinco anos depois do dia em que tudo aconteceu, e só então Mafalda conseguira confidenciar tudo a alguém. Enquanto ela aguardava a doutora Cláudia, sua psiquiatra, terminar as anotações, sentiu que ainda precisava terminar aquela parte da história, e completou:
    — Três dias depois eu fui encontrada na casa do James por uns tios meus que moravam perto dali. Meus pais estavam preocupadíssimos com minha ausência; e minha avó Maria, coitada, ainda mais inconsolável.
    — Então isso também contribuiu para que você pensasse em acabar com tudo de uma vez por todas? — A doutora tirou seus óculos com um gesto largo e encarou sua paciente, sempre com aquele ar de confiabilidade que Mafalda tanto apreciava.
    — Sim. Tudo se juntou numa montanha de desespero: a morte do meu avô e a descoberta de que meu namorado usava drogas. Ainda consegui me recuperar um pouco depois de dois anos, porém, aquela ferida continuou latente, esperando o momento que recomeçaria a sangrar. A depressão começou mesmo quando briguei com a Carminha há uns meses atrás, quando ela me desiludiu. Ainda por cima, fiquei sabendo que o pai dela faleceu, assim como meu avô, e ela nem quis me contar, não quis que eu a apoiasse tanto quanto ela me apoiou. Fiquei tão triste que só tinha em mente achar uma solução definitiva, que acabasse de uma vez por todas com a dor. O que eu queria mesmo era morrer.
    “Mas minha avô ficou ao meu lado, e não deixou que eu fizesse nada tão extremo. E agora, conversando com você, estou começando a me sentir mais leve, já não sinto tanta vontade de cometer suicídio. Ainda assim, não sei se vou conseguir viver como antes, ser tão feliz quanto era antes de completar dezesseis anos”.
    — Claro que não será como antes, Mafalda! — A doutora se inclinou para frente para segurar a mão da jovem. — A dor agora faz parte de você, mas é preciso que você a transforme em algo positivo. Diga-me: você acredita que no futuro verá seu avô novamente?
    — Sim. Preciso acreditar que esta vida não é o fim, que o meu avô está olhando por mim, seja lá onde esteja.
    — E é por isso que eu lhe dou este conselho: faça dos seus próximos anos algo que você possa contar a seu avô quando vocês se reencontrarem, e que o faça ver o quão corajosa a sua neta foi.
    Mafalda refletiu longamente sobre as palavras que acabara de ouvir e, por fim, assentiu com um aceno de cabeça.
    — Verdade. A partir de hoje, vou continuar lutando. Por ele.
    — E sei que você verá que é mais forte do que pensava ser — Cláudia sorriu para Mafalda, vendo que ela entendera que aquele não era e nem precisava ser o fim de sua vida.
    E Mafalda continuou a viver, "escrevendo" a cada dia uma nova página de sua história, aquela mesma que um dia ela contará a Antoninho, e que o fará sorrir com o mesmo orgulho e carinho de sempre.

Texto escrito por Sheila Lima Wing, história enviada por Mafalda, blogueira do "Mafaldinha Arte" e do "Ponto de cruz da Mafalda".

Quer ver a sua história aqui também? Clique neste link e participe do "Minha vida é um conto alado".

Beijinhos Alados,
0 Comentários
Comentários

Comente!!!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Posts relacionados