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01/07/2013

Texto DSA X - "O Ritmo da Vida"

Alados, vamos quebrar um pouco a rotina nessa semana? Eu sei que hoje seria dia de "Capas para Facebook", mas ontem de manhã (antes de ir a Missa) consegui achar uma ideia para fazer um conto, que eu arrisco dizer que só não é mais bonito do que o conto "A conquista" (que ainda é o meu favorito).
Então vamos fazer o seguinte: hoje vocês leem o meu conto e na quarta eu postarei umas capas bem legais.
Então vamos ao décimo texto daqui do DSA (oba, gosto muito de números redondos!). Espero que vocês gostem, pois eu achei uma fofura:

O Ritmo da Vida:


Desde que era bem pequena Lia começou a prestar atenção naquele objeto. Fosse aonde fosse, sempre havia um lá: redondo, com três palitinhos — um bem pequeno que mal saía do lugar, outro que a gente precisava se esforçar bastante para ver que se mexia e um magrelinho que dava alegres voltas saltitantes. Ao redor dele, havia vários pontinhos e uns símbolos engraçados que a pequena ainda não entendia, e não queria aprender o que eram nem tão cedo.
    E aquele ritmo? Tic-tac, tic-tac... Lia achava uma delícia. Ficava um tempão ouvindo-o, percebendo que cada “tic” e cada “tac” acompanhava os passos do palito magrelinho. Logo começou a achar que a vida do mundo inteiro seguia aquele compasso, e cada vez mais sua certeza aumentava; pois se haviam tantos, em todos os cantos, era óbvio que devia ser algo extremamente poderoso ou incrivelmente querido.
    E a variedade que ela encontrava? Uns bem coloridos, outros preto-e-branco; uns pequenos, outros grandes (inclusive um enorme na torre da igreja, que batia gostoso demais a cada hora, uma música bonita mesmo de escutar), uns amarrados nos pulsos das pessoas (gente grande e pequena) e até mesmo um pequenininho, feito anel, que sempre estava no dedo mindinho do vovô.
    E tinham uns estranhos, quadrados, que só tinham aqueles símbolos maçantes que ela não entendia. Desses ela não gostava. Tampouco lhe agradava aqueles que cismavam de tocar bem cedinho, uma musiquinha irritante que só ela; e obrigavam a mamãe a acordá-la. E nem apreciava aqueles que tinham só os palitinhos, sem tracinhos e nem símbolos; esses pareciam vazios, sem vida, imprecisos...
    Lia não demorou a descobrir o nome daquilo: relógio. E achou o nome tão peculiar quanto o objeto. E mais intrigante ainda foi quando ela percebeu que todos os adultos ficavam mais tensos, mais apressados, mais frenéticos, a cada vez que olhavam para um deles. A garota começou a atinar que isso só poderia acontecer porque todos tinham medo do relógio, que ele os tinha como escravos. E pensou que o grande Senhor Relógio só podia ter dado uma ordem que deveria ser cumprida naquele instante; ordem essa que, caso não cumprissem, seriam severamente castigados (ficando sem sobremesa e tudo mais).
    E então imaginou que havia um relógio enorme, com uma cara torta de mau, que empunhava em suas mãozinhas seus ponteiros, brandindo-os como um espadachim. Na cabeça de Lia, ele dizia “Tic” a cada estocada que dava nas pessoas grandes, e bradava triunfante: “Tac!", cada vez que atingia seus traseiros. Aquele pensamento era tão engraçado que durante semanas ela ria sem parar toda vez que surpreendia um adulto olhando para um relógio. E, é claro, todos a olhavam emburrados, como se ela estivesse debochando da pressa em que estavam, ou das suas caras amassadas de quem não sabe se divertir.
    Um dia a menina entrou para a escola e começou a aprender um mundo de coisas. Aprendeu que haviam letras que juntas poderiam contar histórias, aprendeu uma coisa chata chamada matemática — que ninguém no mundo parecia gostar de verdade —, aprendeu nome de bicho, de lugar, de rio, e também que o relógio era apenas uma chatice de instrumento que dividia o dia em um montão de pedacinhos. Imagine sua decepção quando ela soube que os adultos não tinham medo dele, que ele não tinha cara de mau, que não espetava os bumbuns com “Tacs”, que os adultos apenas se apressavam para cumprir seus horários; pois eram cheios de regras e não sabiam parar nem por um segundo para apreciar o ritmo gostoso do ponteiro magrelinho.
    Apenas sobre uma coisa ela julgava estar certa desde o principio: que as pessoas grandes sempre estariam à mercê de seu poder absoluto, e que aquilo não mudaria até o momento em que quisessem voltar a ser como as crianças.

(Sheila Lima Wing)

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Amanhã teremos os "Blogs do Mês", não deixem de conferir o Top 10 de Junho!

Beijinhos Alados,
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