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13/11/2012

Texto DSM III - "Trezentos e sessenta graus"

Hoje trago para vocês um conto de minha autoria que fiz ontem. Não é exatamente uma das minhas melhores obras (até porque ontem eu não estava exatamente inspirada), mas gostei um pouco do resultado final. Só acho que foi meio arriscado de minha parte publicar tão cedo um conto que fizesse vocês duvidarem seriamente de minha saúde mental... Hehehe...
A partir de hoje, todo Texto DSM terá uma ilustração inédita, feita por mim. Isso eu acrescentei pois procurei na pesquisa de imagens do Google e não achei nenhum desenho que se aproximasse de tudo o que quero passar a vocês através de minhas palavras. Então não reparem o fato de que eu não cheguei a caprichar no desenho, pois foi feito aos quarenta e cinco do segundo tempo.

Trezentos e sessenta graus:

O vento ao meu redor agitava furiosamente meus cabelos, e sua ira me arrastava de tal forma que tinha a forte impressão de que a qualquer momento seria arrebatada para longe dali. Não conseguia firmar meus pés no solo e tive de agachar para não ser impelida ao longo daquele mundo utópico. Não havia nenhum objeto visível onde eu pudesse me ancorar, o chão  não passava de uma superfície lisa, translúcida e escorregadia, como vidro.
    Quando finalmente pude me acostumar àquela atmosfera hostil, olhei na direção daquele revestimento frio aos meus pés. Não estava firmada sobre um piso, mas me encontrava num telhado bizarro de onde podia avistar os topos das cabeças de vários indivíduos, que se deslocavam no andar inferior, alheios à minha presença. Qualquer criatura pensaria ser impossível reconhecer alguém daquela distância, mas eu estava consciente de que já estivera ali, e sabia que não havia nenhum teto de vidro naquele lugar, tampouco alguém que me observava do alto.
    Inesperadamente, o aposento alongou-se e distorceu-se num rodamoinho confuso de cores e formas abstratas. Aquela cena se convertera em outra, e nesse novo lugar eu observei a mim mesma, dois anos mais jovem. Estava sozinha num campo aberto, correndo. Lembrava perfeitamente daquele dia e de todos os momentos terríveis que o constituíam, a cena estava tão vívida em minhas retinas que observá-la dali tornava-se desnecessário.
    Um a um, todos os acontecimentos mais marcantes de meu passado iam se projetando aquém do vidro transparente e meu interior se contorcia de agonia ao contemplar tudo aquilo. Levantei-me com dificuldade, mesmo com o furação à minha volta. Qualquer coisa seria mais agradável do que continuar presenciando uma vida que — tenho de admitir — não fora exatamente exemplar.
    Ergui os olhos ao céu, mas não encontrei nele o firmamento costumeiro. Em vez de nuvens, pássaros ou estrelas; cores turvas dançavam sobre minha cabeça, formando imagens trêmulas que se conservavam estáticas por menos de um segundo, antes de mesclar-se com as outras formas difusas próximas, pixelizando-se em pequenos pontos coloridos que se entremeavam numa velocidade impressionante. Era um belo espetáculo. Desejei tocar aquelas cores, descobrir sua textura, sua temperatura, seu estado físico. Estiquei meus braços para o alto, alongando-me perigosamente em sua direção, correndo o risco de voar além, arrastada pelo vendaval. Meus dedos chegaram a centímetros daquele espectro, mas ele parecia afastar-se de mim, como se fôssemos os lados opostos de um imã. No meu interior crescia a sensação de que, se conseguisse tocar aquelas formas, poderia fundir-me naquela confusão, dirluir-me num maravilhoso mundo novo.
    Quando saltei, determinada a alcançar meu objetivo, finalmente fiquei à mercê da ventania e senti aquela cena escurecer, enquanto era arrastada vertiginosamente para muito além de onde estava o piso vítreo que anteriormente me sustentara.
    Meu coração segue num ritmo desenfreado e o suor escorre livremente pela minha testa enquanto tento controlar minha respiração, mas agora sei que estou em segurança, sentada entre minhas cobertas. O relógio ao lado da cama marca duas da matina, cedo demais para despertar.
    Levanto num salto, grata por ter uma cama quente, macia e agradavelmente sólida aos meus pés e alongo-me até o teto apenas pelo prazer de tocar algo palpável. Como é bom estar de volta à realidade, de volta ao meu lar, onde eu sei o sentido de tudo que me cerca!
    Recito uma oração rápida para afugentar os maus sentimentos advindos do pesadelo e volto a deitar-me sob os lençóis perfumados que me envolvem carinhosamente toda noite. Jamais  esquecerei de todo o significado dessa noite psicodélica, ainda que não entenda minuciosamente os detalhes mais complexos.

(Sheila Lima Wing)

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Mil Sweetkisses,
8 Comentários
Comentários

8 comentários:

  1. Tu não caprichou no texto????? '-' Imagina então se tivesse!! Ficou LINDO Sheila! Até me lembrou um pouco de uma autora muito querida minha do Nyah Fanfiction. Normalmente quando eu leio algo (mesmo que não esteja inspirada e a base uma coisa fútil qualquer) eu consigo complementa-la com textos, frases e até historias, mas não costumo ter muito tempo então deixo de criar varias. É que, digamos assim, eu tenho um pouco de vergonha de mostrar os meus textos... O pessoal diz que tudo que eu faço fica fofinho, e é aí que tá! Imagina uma cena de ação "fofa"?? XD Em alguns aspectos não fica tão bom, mas se eu repensar talvez eu coloque o texto^^ mas acho que vou fazer é um desenho mesmo, e ja até tive uma ideia!

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  2. Ficou muito lindo o texto!!
    Só achei meio dificil o desafio, eu não consigo escrever as coisas assim sabe? Minha inspiração só vem antes de dormir, em uma janela de um carro e na hora do banho (igual você né kkkk).
    Eu só não vou tomar banho pra ter ideias ^^

    Vou tentar fazer um desenho, faz tanto tempo que não desenho

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  3. Ah, então você não estava "exatamente inspirada"?
    Sheila, o seu texto ficou ótimo! Você realmente escreve muito bem!
    Sinceramente, gostei muito!
    Desculpe pela pergunta indiscreta, mas, já pensou em escrever livros?

    Beijos, Carol!
    Part Of Me

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  4. Oiii Flor!! Tudo bem?? Peço para que dê uma passada lá no meu blog, tem um post muito legal: 223 famosos e mais alguns perfis legais no Instagram!! Estarei te esperando!! Obrigada e beijoss.

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  5. Cinco letras…
    Cinco pontas de cadente perdida na aurora
    Na loucura de alguns instantes escrevo
    Descalço vou adiante num ir longe, embora

    Solto das mãos murmúrios sussurrantes
    Do basalto explode um bando de pombos bravos, alguns negros
    Há um livro branco apenas com a palavra ausência
    Há uma carta de marear para um rumo de mil segredos

    Flores de solidão crescem em pedaços de fria lava
    Um espantalho saltou-me do bolso a remexer
    Uma sombra desceu a janela e tocou-me
    Cerrei olhos para sentir o que não queria ver

    Boa semana

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  6. Adorei!!!! Era tudo um sonho rsrsrs, porque será que você sabia que ia amar??? rsrsrs, ficou muito legal, cada detalhe, cada sentimento perfeito!!!!
    http://jujumeumundo.blogspot.com.br/

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  7. Sheilinhaaa! Eu ainda não tinha lido por isso não comentei nada rsrsrs, mas agora que terminei de ler e que fiquei presa cada frase ao seu texto só posso te dizer que me fez lembrar do tempo de fake parecia descrição de um turno, perfeito por sinal! Parabéns muito bom mesmo tudo fazendo sentido em uma loucura completa!
    Beijos bom feriado!
    Pri

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  8. Diferente e atordoante, vc realmente escreve bem, desenha, escreve, há alguma coisa que vc faça bem que eu não sei? Será que canta tbm... rsrsrsrsrs

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